
Este tema costuma frequentar minha cabeça periodicamente. Considero, apesar de muita produção filosófica recente que argumenta o contrário, que a liberdade é não apenas uma questão de direito, mas uma característica que constitui o ser humano. Em outros termos o que quero dizer é que nós, enquanto seres humanos, somos livres.
Como assim? A idéia que costuma circular sobre a questão da liberdade trata desta como se esta fosse um bem que nos é dado por uma certa maneira de organizar a sociedade e que, de repente, poderia ser tirado de nós. Ora, defendo que, pelo contrário, a liberdade nos constitui, mas nos constitui não no sentido usual, o de que "nossa escolhas nos constituem" ou ainda "os caminhos que escolhemos nos constituem", aqui quero dizer que, pelo contrário, não há caminhos pré-existentes ao viver, viver é constantemente atividade criadora.
É aqui que a situação costuma complicar, porque é aonde aqueles que dedicaram boa parte de sua vida a criticar o determinismo e a sustentar que o ser humano é livre costumam discordar. Quero dizer que não há consenso sobre o que é a liberdade. Quero agora comentar a opinião de dois críticos ferrenhos do determinismo, afim de demarcar suas diferenças e acirrar o debate.
O primeiro que escolhi foi Karl Popper. Popper uma vez se referiu ao determinismo assim:
"É um pesadelo porque sustenta que todo o mundo, com tudo que há nele é um gigantesco autômato, e que não somos senão rodas de engrenagens ou, no máximo, subautômatos dele."
Só que Popper, para refutar o determinismo escolheu o Princípio das Possibilidades Alternativas, ou seja, a idéia de que as pessoas quando defrontadas com determinadas situações podem agir de uma forma ou de outra. Em outras palavras, que quando uma situação aparece, já existem uma certa quantidade de possibilidades que o indivíduo escolhe. Popper na verdade fala de livre-arbítrio.
Dificilmente pensamos que livre-arbítrio pode ser diferente de liberdade e que, na verdade, ele pode ser até bem amigo do determinismo. Quando falamos que as possibilidades de ação já estão dadas, acredito que isto seja uma forma de afirmar que tudo está dado e que só nos restaria escolher dentre as possibilidades já determinadas.
Deste modo, creio que nem Popper nem a idéia de livre-arbítrio conseguem vencer o determinismo, mas acabam por criar uma liberdade de escolha num universo de possibilidades já determinadas, ou seja, num universo no qual nada se cria, não há criatividade, por mais que Popper a defenda tão ferrenhamente.
Outro pensador propôs algo bastante inovador nesta área, trata-se de Henri Bergson. A filosofia de Bergson debruça-se sobre a vida, afirmando que a própria duração da mesma é criadora. Para Bergson não existem possibilidades pré dadas, nada está dado antes de ser criado, o tempo é propiciador deste "contínuo jorro de novidade". Não há para ele "Possibilidades alternativas", mas a criação constante de experiências singulares que por mais que se tente, não se repetem.
Bergson foi também um grande crítico do determinismo de Einstein, no qual o tempo é uma quarta dimensão que apenas faz os fatos se desenrolarem ao invés de serem dados ao mesmo tempo, o que para ele aconteceria se nos movêssemos na velocidade da luz, veríamos tudo se suceder ao mesmo tempo. A Einstein, Bergson uma vez afirmou: "Falamos de tempos diferentes"
Talvez a filosofia de Bergson se aproxime mais do que acredito ser efetivamente liberdade. O problema é que, como na maioria das grandes questões da humanidade, todos argumentam muito fortemente defendendo aquilo que acreditam. O que nos resta então? Vence aquele com melhor habilidade retórica? Alguns podem defender que fica a cargo da ciência descobrir a "verdade", decifrar a "verdadeira realidade". Eu pergunto: qual realidade? A Newtoniana? A Einsteniana? A quântica? Ou nenhuma delas?